Dissociação é defesa, não desinteresse
Quando o paciente fica distante no meio da sessão, é fácil ler aquilo como desinteresse, resistência ou preguiça. Na maioria das vezes, é proteção.
Tem uma cena que quase todo psicólogo conhece. Você está conduzindo a sessão, o assunto está andando, e em algum momento o paciente sai do ar. O olhar vidra um pouco, as respostas ficam curtas e atrasadas, ele passa a falar de si como quem relata algo distante, na terceira pessoa. A presença esvazia. A pessoa continua ali, no corpo, mas alguém saiu da sala.
A leitura que vem primeiro, quase automática, costuma ser de desânimo. A gente pensa que o paciente perdeu o interesse, que não está se esforçando, que está resistindo ao trabalho, ou até que está com preguiça naquele dia. E essa leitura tem consequência, porque ela muda o que a gente faz em seguida. Se eu acho que é desinteresse, eu insisto, puxo, tento reengajar, às vezes cobro. E quase sempre piora.
O problema é que essa leitura erra a causa. O que parece desligamento por falta de interesse costuma ser desligamento por excesso de carga. São coisas opostas que produzem a mesma cara.
Para entender isso, vale lembrar como o sistema nervoso responde à ameaça, e aqui o Treleaven se apoia na Teoria Polivagal, do Porges. Diante de algo que assusta, o corpo tem mais de uma resposta. A mais conhecida é a de luta ou fuga, o sistema acelera, a pessoa fica agitada, vai para cima ou quer sumir dali. É a hiperativação, o limite de cima da janela. Mas existe uma segunda resposta, que entra quando lutar ou fugir não parece possível, ou quando a carga é grande demais. Aí o corpo faz o contrário: desliga. Reduz, anestesia, desconecta. É o congelamento, a hipoativação, o limite de baixo.
A dissociação mora nesse segundo movimento. Ela não é ausência de reação, ela é uma reação, e das mais antigas que temos. Quando algo aperta além do que o sistema aguenta processar, desligar é a forma que o corpo encontrou de proteger a pessoa do que seria insuportável sentir por inteiro. Em quem tem história de trauma, esse mecanismo fica especialmente disponível, porque já foi muito usado. Foi ele que segurou as pontas quando não havia outra saída.
Olhando por aí, a cena da sessão muda de sentido. O paciente que se desliga não está se afastando do trabalho. Ele está fazendo, ali na sua frente, exatamente o que o corpo dele aprendeu a fazer quando a aproximação de algo difícil passa de um certo ponto. O desligamento é o sinal de que a janela foi ultrapassada por baixo, não de que faltou empenho. É informação clínica preciosa, e ela vinha sendo lida como o oposto do que é.
Isso reorganiza a resposta. Diante de desinteresse, a tendência é insistir. Diante de uma defesa que disparou, insistir é a pior escolha, porque empurra mais para fora da janela justamente quem já saiu. O que cabe é o contrário: aliviar a carga. Diminuir, abrir os olhos, trocar o foco para algo externo e concreto, voltar para a conversa, trazer os pés para o chão. Não para abandonar o que estava sendo trabalhado, mas para trazer o paciente de volta para um lugar de onde dê para trabalhar. Fora da janela, ninguém processa nada, por mais boa vontade que tenha.
Tem um efeito de relação nisso também, e talvez seja o mais importante. Quando o terapeuta lê o desligamento como desinteresse, o paciente sente a cobrança, mesmo que sutil, e some ainda mais, agora com culpa em cima. Quando o terapeuta lê o desligamento como proteção, ele consegue dizer, sem pressa, algo como “parece que ficou pesado, vamos diminuir um pouco”. Essa frase comunica segurança. E segurança é o único terreno em que a defesa pode relaxar e a pessoa pode voltar. A leitura certa não é só mais precisa, ela é, em si, parte da regulação.
Vale fechar com uma honestidade sobre os limites disso. Nem todo silêncio é dissociação, nem todo olhar distante é defesa. Às vezes o paciente está cansado mesmo, ou disperso, ou entediado. A leitura não é uma certeza, é uma hipótese a mais na sua cabeça, e uma que normalmente está em falta. O ganho não é cravar que toda distância é proteção. É parar de assumir, por reflexo, que toda distância é desinteresse, e passar a se perguntar, antes de insistir, se aquilo não é um corpo fazendo o que sabe para se cuidar.
Talvez a pergunta mais útil, quando o paciente sai do ar, não seja “como faço para ele se engajar de novo?”, e sim “o que ficou pesado demais agora, a ponto de o corpo precisar desligar?”. A primeira pergunta cobra. A segunda lê. E é a leitura, não a cobrança, que devolve o paciente para dentro da janela, de onde o trabalho volta a ser possível.
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